Raul Pompeia - O Ateneu - 10 / 12









O Ateneu, de Raul Pompéia


X


Bem diferente esta exaltação deliciosa do abatimento espavorido da véspera, da manhã mesmo, na secretaria da Instrução Pública. A expectativa mortal das chamadas; uma insignificância: o terror acadêmico! que nos sobressalta, que nos deprime como o que há de mais grave. E por ocasião das provas de francês já não era estreante.

A estréia do primeiro exame foi de fazer febre. Três dias antes pulavam-me as palpitações; o apetite desapareceu; o sono depois do apetite; na manhã do ato, as noções mais elementares da matéria com o apetite e com o sono. Memoria in albis.

O professor Mânlio animava; a animação, lembrando o perigo, assustava mais. Esmagava-me por antecipação o peso enorme da bastilha da Rua dos Ourives, como os tribunais ferozes, sem apelo; a terrível campainha penetrante da abertura da solenidade, os reposteiros plúmbeos de espesso verde, sopesando as armas imperiais, as formidáveis paredes de alvenaria secular. Que barbaridade aquela conspiração toda contra mim, contra um, de todos aqueles perfis rebarbativos, contínuos, o Matoso, o Neves Leão, as comissões, qual mais poderosa e carrancuda; o Conselho da Instrução no fundo, coisa desconhecida, mitológica, entrevista como as pinturas religiosas das abóbadas sombrias, onde as vozes da nave engrossam de ressonância, emprestando a força moral à justiça das comissões, com o prestigio da elevação e do inacessível; mais alto que tudo, o Ministro do império, o Executivo,

o Estado, a Ordem Social, aparato enorme contra uma criança.

Entrava-se pela Rua da Assembléia, para o saguão ladrilhado.

Ali estive não sei que tempo, como um condenado em oratório. Em redor de mim, morriam de palidez outros infelizes, esperando a chamada. Um, o mais velho de todos, cadavérico, ar de Cristo, tinha a barba rente, pretíssima, como um queixo de ébano adaptado a uma cara de marfim velho.

De repente abre-se uma porta. De dentro, do escuro, saia uma voz, uma lista de nomes: um, outro, outro... ainda não era o meu... Afinal! Não houve nem tempo para um desmaio. Empurraram-me; a porta fechou-se; sem consciência dos passos, achei-me numa sala grande, silente, sombria, de teto baixo, de vigas pintadas, que fazia dobrar-se a cabeça instintivamente. Uma parede vidraçada em toda a altura, de vidros opacos de fumaça, cor de pergaminho, coava para o interior um crepúsculo fatigado, amarelento, que pregava máscaras de icterícia às fisionomias.

Entre as vidraças e os lugares que eram destinados aos examinandos, ficava a mesa examinadora: à direita um velho calvo, baixinho, de alouradas cãs, rodeando a calva em franja de dragonas, barba da cor dos cabelos, reclinava-se ao espaldar da poltrona e lia um pequeno volume com o esforço dos míopes, esfregando as páginas ao rosto. A esquerda, um homem de trinta anos, barba rareada por toda a face, pálpebras inclusive, óculos escuros, cabelo seco, caracolando. A claridade, batendo pelas costas, denegria-lhe confusamente as feições. O terceiro, presidente da comissão, não se via bem, encoberto pela urna verde de frisos amarelos.

Distribuiu-se o papel rubricado. Um dos examinadores levantou-se, apanhou com um movimento circular um punhado de pontos e lançou-os à urna. A urna de folha cantava irônica sob o cair dos números, sonoramente.

Tirou-se o ponto; momento de angústia ainda .

Depois: estrofe dos Lusíadas! Estávamos livres da expectativa. Não me preocupou mais a dificuldade do ponto.

Depois do ditado, como em relaxamento de cansaço do espírito, esqueci o inventário natural dos conhecimentos que a prova reclamava. Pus-me a pensar nas primeiras leituras de Camões, no Sanches, nos banhos da natação, na maneira de rir de Ângela, no criado assassinado, no processo do assassino, que fora julgado havia pouco... Três pancadinhas que senti no calcanhar, chamaram-me das distrações.

Voltei-me: era o meu vizinho da mesa de trás, o queixo de ébano que pedia socorro. “Valha-me que estou perdido, não atino com a ordem direta!”

O ruído desta frase balbuciada, sibilou bem forte para atrair a atenção da mesa. Atirei-lhe a oração principal, mas tive medo de acudir inteiramente. Além disso, precisava cuidar do próprio interesse. Deixei o pobre Cristo de marfim entregue ao desespero de uma lauda deserta. De vez em quando, o infeliz espetava-me as costas com a caneta.

Para a prova oral fui mais animado. A nota da escrita era tranqüilizadora.

Os exames orais eram todos nas salas de cima. Entrava-se pela Rua dos Ourives. Os examinandos estavam em geral mais calmos. Além destes, enchia-se o saguão da escada com a turbamulta dos assistentes, confusão de fardetas, fraques surrados, sobrecasacas, todas as idades, todos os colégios representados, além dos estudantes avulsos de aulas particulares, em cujo número confundiam-se caras suspeitas de farroupilhas, exemplares definidos de vagabundagem.

O Ateneu era invejado. Vitimas do uniforme, os discípulos de Aristarco passeavam entre os grupos dos colégios rivais, sofrendo dichotes, com uma paciência recomendada de boa educação.

Fumava-se. No ambiente sem luz pairava fixo o nevoeiro dos hálitos e um cheiro de sarro intolerável; emplastravam-se de cusparadas as paredes; passeava-se arrastando os pés na areia do ladrilho; ressoavam grandes gargalhadas de ship-chandler; chasqueava-se a palavrões. Alguns rapazes de sorrisos frouxos, sem expressão, maneiras reles, arrebitavam para o alto, com as costas da mão, chapéus de palha suja, e passeavam gingando. Os mais distintos devam caminho, repuxando um canto desdenhoso de lábios, perfilando mais a elegância.

Um rebuliço extraordinário agitou a multidão. Acabava-se de descobrir na cal, coberta de epigramas e rabiscos, uma nova inscrição de muito espírito: versalhada satírica contra o Professor Courroux, da mesa de francês, rimando em u, sempre em u, de cima a baixo, com uma fertilidade pasmosa de epítetos.

Nem de propósito! na mesma ocasião entrava e lançava-se precipitadamente pela escada

o terrível professor. “Não o conhece? Lá vai!” indicou-me um companheiro mais próximo.

— Não o conhecia...

Vi-o, magro, anguloso, feio, olhando com ferocidade continua, não se sabia felizmente para quem, porque era estrábico. Por ele começou o meu improvisado informante, e conhecendo que eu andava atrasado a respeito, não me deixou mais: “Se tem empenho, fura; se não tem, babau. Bancas de peixe! O peixe é caro às vezes, mas é sempre peixe de mercado. Olhe o Meireles da filosofia, aquele compridão de barba russa; o empenho é a Ritinha Pernambucana da Rua dos Arcos; o Simas da mesa de geografia, um pançudo apelidado esfera terrestre, mimoseiem-no com um par de galos de briga... o Barros Andrade... comprem-lhe os pontos..., aquele diabo da retórica que me bombeou há dias... falem-lhe nos versos, que não há suíças mais amáveis. O seu diretor é que os compreende. Quando entra aqui é uma onça; o próprio teto branco empalidece; levantam-se, saúdam o soberano! Agora, há homens respeitáveis: o velho Moreira, o simpático Ramiro, de sorriso patriarcal...”

Do topo da escada gritaram para o saguão que ia principiar a chamada dos de português.

Quando subia, vi um movimento enorme de rapazes na rua: um rolo! Silvavam os apitos. Atracavam-se os estudantes com os carroceiros a sopapos de ida e volta, segundo o belo costume do tempo.

Prestavam-se os exames numa grande sala de muitas janelas, de velhos caixilhos em xadrez apertado, vidros grossos, antigos, mal fundidos, oferecendo espessuras desiguais e densidades verdes. Um parapeito de ferro em grade dividia o salão por dois lances; o mais espaçoso para os assistentes. No outro havia duas mesas de exame; a de matemáticas, perto da entrada, a de português, mais adiante, e tão chegadas que se fundiam as respostas de uma com as perguntas da outra, resultando admiráveis efeitos de aplicação das ciências exatas à filologia.

Antes da cerimônia palestrava-se, a meia voz. Um sujeito entrou, deixando cair a bengala. Olharam todos. “Não conhece?” indagou-me o oficioso companheiro.

Um sexagenário, encanecido e helicoidal, cara lambida de padre, cabelos brancos ondeando pelos ombros em bossa, sobrecasaca ilimitada riscando o chão a cada passo. “O Conselheiro Vilela, ou, melhor, o Conselheiro Tieitch, uma instituição! Vai presidir às matemáticas. Preside a tudo, conforme é preciso. Incorruptível! Catão e Bruto somados... Na banca de inglês, há uns anos, reprovava a todos... Como neo?! dizia; se erram escandalosamente no tieitch! Muito depois, apanharam-no consultando o Tautphoeus: Que diabo, Barão, é este célebre tieitch em que tanto se erra?...”

Quando no dia do jantar subi para o dormitório com o Egbert, dançava-me no espírito, reduzida a miniatura, a imagem de Ema (era agradável suprimir o D.), pequenina como uma abelha de ouro, vibrante e incerta.

Sonhei: ela sentada na cama, eu no verniz do chão, de joelhos. Mostrava-me a mão, recortada em paro jaspe, unhas de rosa, como pétalas incrustadas. Eu fazia esforços para colher a mão e beijar, a mão fugia; chegava-se um pouco, escapava para mais alto; baixava de novo, fugia mais longe ainda, para o teto, para o céu, e eu a via inatingível na altura, clara, aberta como um astro.

Ela ria do meu desespero, mostrava-me o pé descalço, que a calçasse; não permitia mais. Calçar-lhe apenas o arminho que ali estava, o pequeno sapato, branco, exânime, voltando a sola, sem o conforto cálido do pé que o pisava, que o vivificava. Eu me inclinava, invejoso do arminho, sobre o crivo de seda da meia, milagre de indústria para o qual concorrera cada dia do século industrial com um esforço, tecido impalpável, de fibras vivas, filtrando a transparência branda do sangue, invólucro sutil de um mimo de joelho, de perna, de tornozelo, irremediavelmente desfalcado do espólio glorioso da estatuária pagã. Calçá-la apenas! Mas eu a fazia torcer-se, calçando-a, de dores numa tortura ardente de beijos, exalando eu próprio a alma toda em chama.

Que outra criatura eu era ao despertar! A aparição encantadora extinta; mas eu sofria da reação de trevas que sucede aos deslumbramentos.

Continuava cordialmente com o Egbert. Parecia-me, entretanto, a sua amizade agora uma coisa insuficiente como se houvesse em mim uma selvageria amordaçada de afetos.

Egbert parecia às vezes um intruso. Passeando com ele, que diferença de outrora! produzia-me o efeito de uma terceira pessoa. Eu preferia andar só.

Não sei por que conveniência de acomodação, fui transferido para o dormitório dos maiores. Esta mudança distanciava-me ainda mais do Egbert; passamos a nos encontrar somente à tarde, no campo.

Depois das aulas, subia para o dormitório, aproveitando-me do relaxamento da policia do salão.

O inspetor responsável era o Silvino. Receoso de uma represália dos grandes, o prudente bedel deixava andar.

Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pátio, como coisa absolutamente alheia à minha vida. Contava as tábuas do teto, porção de traços paralelos que se perdiam num reflexo da tinta. Às vezes lia narrativas de Dumas, que não distraiam. Em outras camas, deitados como eu, de cara para cima, cruzando os botins, alguns colegas fumavam, soprando, devagarinho, colunas de fumo que subiam verticalmente, e rodavam azuis. A um canto, no fim do salão, jogavam três parceiros, bocejantes, acentuando sem entusiasmo as alternativas do azar como uma partida de sonâmbulos. Muita vez na modorra pesada da sesta, as costas aquecidas da posição, fechando-se-me os olhos, ao brilho do sol que adivinhava li fora no terreiro abrasado, eu adormecia. À hora da aula ou do jantar, um companheiro puxava-me.

Estes intervalos de dormência sem sonho, sem idéias, sem definida cisma, eram o meu sossego. Pensar era impacientar-me. Que desejava eu? Sempre o desespero da reclusão colegial e da idade. Vinham-me crises nervosas de movimento, e eu cruzava de passos frenéticos o pátio, sôfrego, acelerando-me cada vez mais, como se quisesse passar adiante do tempo. Nem me interessavam as intrigas do salão. E que intrigas! exatamente a substância do afamado mistério do chalé.

A uma das extremidades do comprido salão, armava-se o biombo do Silvino, grande caixão de pinho a meia altura do teto, com uma porta e uma janela de palmo quadrado, donde saiam emanações de roupas suadas e várias outras, cheiros indecifráveis de pouco asseio; donde saia mais, durante a noite, crescendo, decrescendo, um roncar enorme, fungado de narigudo.

Os rapazes furavam orifícios com verrumas para espiar, e tinham achado a legenda do Silvino. Depois disto, vinha a demografia especial da terceira classe, a distribuição por famílias regulares, ou por aproximações eventuais, conforme os caracteres, sob a divisa comum do nada haver, ou como entendiam outros nada a ver. Louvavam-se os exemplos de fidelidade; comentavam-se as traições; censuravam-se as tentativas de sedução; improvisava-se a teoria do lar e do leito; cantava-se o hino báquico dos caprichos volantes, do entusiasmo passageiro. Chamavam-me a mim o Sérgio do Alves. Fazia-se a critica dos novos sob um ponto de vista inteiramente deles. Apostavam a ver quem seria primeiro, exigiam juramento de segredo, para passar adiante uma história que tinham por sua vez jurado não contar a ninguém. Serviam-se mutuamente em pasto às boas risadas, anedotas espessas, com ou sem aplicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda a crônica obscura do Ateneu redigia-se ali, em termos explícitos e fortes, expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo escrúpulo das comissões investigadoras. O Silvino que se fosse! Não tinha nada com a conversa dos rapazes. Uma das melhores máximas do chalé era esta, característica: — Fica revogado o diretor.

Tudo que na primeira classe e na segunda era extraordinário, ali era normal e corrente. Todas as idades, desde o Cândido até o Sanches.

Das classes inferiores, havia quem fizesse empenho em mudar para a terceira. No ambiente torvo da intriga, insinuava-se o vaivém silencioso das ficções, drama joco-sério dos instintos, em ilusão convencional e grosseira. E investiam-se dos diversos caracteres convictamente os mancebos, explorando o momento efêmero da pele, novidade tenra do semblante, como elemento de artifício, deleitando-se no engano, tomando a peito a caricatura da sensualidade.

Havia o que afetava moderação no capricho, conhecendo o desvio em regra, como o ladrão sabe ser honesto no roubo; com o ar sério, espantadiço das femmes qui sortent; havia os ingênuos, perpetuamente infantis, não fazendo por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de adiar a inocência intata através dos positivos extremos; havia os entusiastas da profissão, conscientes, francos, impetuosos, apregoando-se por gosto, que não perdoavam à natureza o erro original da conformação: ah! não ser eu mulher para melhor o ser! Estes faziam grupo à parte, conhecidos publicamente e satisfeitos com isto, protegidos por um favor de simpatia geral, inconfessado mas evidente, beneplácito perverso e amável de tolerância que favoneia sempre a corrupção como um aplauso. Eles, os belos efebos! exemplos da graça juvenil e da nobreza da linha. Às vezes traziam pulseiras; ao banho triunfavam, nus, demorando atitudes de ninfa, à beira d’água, em meio da coleção mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de meia, e carnes sem forma. Havia os decaídos, portadores miseráveis de desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos às vezes antes do consumo, atormentados pela propensão de um lado, pela repulsa de outro, mendigos de compaixão sem esmola, reduzidos ao extremo de conformar-se deploravelmente com a solidão.

Com estes em contraposição, os de orgulho masculino, peludos, morenos, nodosos de músculos, largos de ossada, e outros mirrados de malícia, insaciáveis, de voz trêmula e narinas ávidas de bode, os gorduchos de beiço vermelho relaxado, fazendo praça de uma superioridade porque nem sempre zelaram antes da madureza das banhas.

Ângela dominava-os a todos; vencia-os.

As janelas abertas para o quintal do diretor eram fortemente gradeadas de madeira; por entre as travessas olhávamos.

Ângela fazia-se menina para brincar e correr com vivacidades de gata. Rolava no chão, envolvendo a cara nos cabelos, secos, soltos. Saltava agitando o ar com as roupas; colhia flores e jogava, distribuindo por igual a todos, que ela a todos queria bem. Quando não havia muitos, às grades do salão, descuidava-se, aparecia em corpinho e saia branca, afrouxando o cordão sobre o seio, mostrando o braço desde a espádua, espreguiçando-se com as mãos ambas à nuca e os cotovelos para cima, contando para a janela histórias que não acabavam mais, enquanto às axilas, em fofos de camisa, ia escapando a indiscrição dos fios fulvos. Sempre ao sol! sempre alegre! filha selvagem da luz, fauna indomável das regiões quentes, afrontando a temperatura como as leoas, insensível e sobranceira.

Cantava.

Só no canto era triste; canções nostálgicas repassadas do sentimento de coisas distantes, um lar amigo de pais, um coração de adolescente, conhecido uma vez antes da emigração para sempre, canções da ilha em que se ouvia o murmúrio do oceano calmo e das brisas viajadas, e

o grito angustiado das gaivotas e a celeuma longe da maruja à faina, acompanhando um estribilho insistente de amor, amor malandro de gente pobre à beira-mar, feito de peixe, de ociosidade triste e de calor.

Às vezes era grosseira: dialogava ao desafio em chacota desbocada, com quem quisesse; impacientava-se abruptamente e desaparecia, arremessando uma praga de bem acabada torpeza. Fazia pilhéria; tinha um colégio também para receber internos, externos, meio-pensionistas. Batia no ventre.

E com a grosseria, com a chacota, com o estribilho sentimental, com os descuidos do corpinho, com as flores, com as turbulências de criança sem modos, Ângela era a rainha da atenção e da curiosidade: inflamava-se o chalé em conflagrações de entusiasmo. Se passava algum tempo sem aparecer, colavam-se às grades, perscrutando a sombra das árvores do quintal, carinhas sem conta, chapadas de saudade.

E divertia-se a apreciar os ardores engaiolados dos seus meninos, entretendo-se a desesperá-los como quem atiça o braseiro para ver a erupção das fagulhas, o rodopiar dos rubis candentes, com um prazer graduado entre o orgulho da castelã requestada de cem paladinos e a expectativa palpitante do carname em postas de um festim de jaula.

Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos conseguira sofismar alguns paus da grade da última janela, três ou quatro leitos além do meu, e passavam de noite, quando o silêncio se fazia, a tomar fresco no jardim do diretor. Preferiam as noites escuras, que têm mais estrelas e mais segredo, e preferiam as noites de chuva, que em questão de fresco são decisivas. Desciam por uma corda de lençóis torcidos e voltavam às vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por medida de prudência, não passeavam mais de dois por noite, fazendo sentinela um durante a ausência do outro.

Disse que me não interessavam as intrigas e preocupações gerais do salão; não fui preciso; e não sei como possa ser neste ponto sem recorrer às modalidades de expressão — atualmente, virtualmente, que o anacronismo injusto condenou. Pouco se me davam fatos; o espírito seduzia. Talvez por isso fiz a descoberta do sofisma da camarilha; incomodando-me a liberdade secreta, o rega-bofe às altas horas, como um roubo feito a mim, aos companheiros, iludidos no sono, traição odiosa à nossa tolice de descuidados. Veio-me uma noite a tentação violenta de espalhar o segredo por todos, desmoralizar os finórios, conduzir o Silvino e mostrar-lhe os sarrafos ajeitados à deslocação, trair merecidamente aos traidores. Medi as objeções: além de feia delação de voluntário da espionagem, podia ser asneira. Talvez soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de pouco na terceira classe. Experimentei. Conservei-me acordado até à hora, com uma paciência e um esforço de caçador de emboscada. No momento flagrante, ergui-me na cama, esfregando os olhos, fingindo-me admirado. Não houve remédio senão iniciar-me. Os dois da noite contaram. Malheiro era o chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito hábeis; também quem traísse apanhava.

A minha irritação contra o sofisma abrandou sem desfazer-se. Sempre que por acaso algum rapaz surpreendia os expedicionários da frescata, era incontinenti aliciado para as vantagens e sob as ameaças. O marro fabuloso do Malheiro era a sanção.

Não quis as vantagens, mesmo murro à parte. Não que me não escaldassem as horas noturnas do chalé! Ah! o passeio livre no jardim! as grades abertas do cárcere forçado! Mas uma hesitação prendia-me, de compromissos antigos comigo mesmo, compromissos de linha reta, não sei como diga, razões velhas de vaidade vertebrada; aversão ao subterfúgio; ou talvez um medo que me ocorreu por último, sem fundamento: fosse uma vez, e de volta não achasse mais a corda para subir.

Outro sinal de que não escapava à psicologia comum do chalé foi um acesso de furor que tive de sufocar, um dia que falaram de D. Ema diante de mim. Que me importava D. Ema? Uma boa senhora, nada mais, que me festejara com excesso de complacência, nos limites, porém, da hospitalidade de rigor para muitas pessoas amáveis. Deixara uma simples lembrança de gratidão, que começava a apagar-se.

Repetiam as murmurações do Professor Crisóstomo, frioleiras de maldade. Pelas janelas gradeadas indicavam junto do muro da natação as venezianas da enfermaria e faziam a apologia da enfermeira, enfermeirazinha caidadosa, com um jeito incomparável para o tratamento dos casos graves do coração. E vinham com histórias de estudantes muito mal de imaginárias moléstias... Doeu-me aquilo, como se me houvessem ferido o mais santo escrúpulo de sentimento. Uma infâmia, uma infâmia, esta afirmação de coisas improvadas!

No meio desta temporada de descontentamento, tive um dia de prazer, prazer malvado, mas completo. Dormia no chalé o famoso Rômulo. Ocupava a cama inteira de ferro com a fartura de ádipo e ressonava, no extremo oposto do salão, com a mesma intensidade que o Silvino falava fino o diabo e roncava grosso. Era um dos tais da troça do Malheiro.

Quando tocava-lhe a vez, reforçavam-se os lençóis e saiam mais dois paus.

Uma noite que o vi descer, tive idéia de pregar-lhe uma peça. Arriscadíssima, como vão ver, mas eu contava com o concurso, depois, do interesse de todos em abafar o negócio.

Lembram-se do receio infundado de que falei. Estava de sentinela o companheiro, que recolocava a grade, até que um aviso do quintal pedisse a corda. Ofereci-me para substituí-lo. O colega foi dormir.

Com o sangue-frio das boas vinganças, sem a menor pressa. evoquei a memória da afronta que me devia Rômulo. Era justo. Recolhi pouco a pouco a corda de lençóis, firmei forte as barras da grade e fui dormir. Chovia a potes; tanto melhor: a injúria, que o sangue não lava, bem pode lavar uma ducha de enxurro.

Estava vingado!

No outro dia apareceu o gorducho entanguido, encatarrado, furibundo, em chinelos sem meias, calças, camisas de náufrago, miserando, cercado pelo espanto de todos e pela galhofa.

Passara a noite sob a janela pedindo misericórdia ao sarrafo impassível, toda a noite, inundado pelo aguaceiro, até que, ao romper do dia, Aristarco o foi achar no lastimoso estado.

A noiva não viu, que acordava tarde. O sogro atinou espertamente com a aventura. Fez-se de esquerdo.

“Ora o rapaz!...” exclamou com uma satisfação muito íntima.

E estranhou apenas que o bom do genro se deixasse pegar como um lorpa.








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